Muitas das vezes que temos feriados é quase possível – depois de um alívio de saber que ele vem, claro – ouvir uma voz dizer: “mas é feriado de que?”. Hoje, dia 1º de Maio é dia internacional do trabalhador. Bom, se pensar bem, todos os dias são dias do trabalhador no sentido que eles foram feitos e pensados para que o trabalhador execute suas funções. Mas oficialmente, hoje é o dia do feriado do trabalhador. Pois mais do que nos outros feriados também possa haver – com muitas exceções – este é o feriado em que se pensa especificamente no trabalhador de todos os dias.
Nem sempre houve um 1º de Maio considerado o dia do trabalho. Foi em 1886, neste mesmo dia, em Chicago (USA) em que trabalhadores operários que trabalhavam durante 13h diárias se uniram para fazer uma greve que teve efeito que reverbera até hoje. Mas não foi fácil alcançar essa conquista, como não é até hoje em qualquer instância social e política. Ao realizarem a greve, aqueles operários foram confrontados pela polícia com violência. No entanto, o que reverberou muito mais não foi a agressividade das autoridades, mas sim a resistência que permitiu que fossem notados pela Segunda Internacional Socialista, em Paris, que acolheu estes trabalhadores para fazerem manifestações anualmente junto a eles. Outros países também apoiaram o movimento, até que em 1924 o presidente do Brasil Arthur Bernardes instituiu o dia Internacional do Trabalho também no calendário brasileiro.
Na nossa área, somos trabalhadores da informação, aquele que faz a mediação e facilita o acesso entre o usuário e os livros em uma biblioteca física ou virtual. O Brasil atualmente não valoriza bibliotecários tanto quanto deveria. Isso pode ser demonstrado através da ausência destes profissionais em bibliotecas – vemos auxiliares substituindo bibliotecários, com salários inferiores ao piso nacional e especificamente no Nordeste a situação é mais precária. As bibliotecas de cidades do interior são as mais prejudicadas (ah, e quando há bibliotecas!). Quando não há bibliotecárias há um prejuízo da organização, catalogação e, portanto, acesso à informação de modo ideal. Atualmente os salários dos bibliotecários são incompatíveis com o que deveriam ganhar… Nós nos apoiamos em concursos públicos para termos estabilidade e uma devida jornada semanal mais justa, mas também há poucos deles e pouca oferta de vagas…
Nós também nos inserimos no contexto nacional e geral do mercado de trabalho: há uma jornada em que somente em um dia da semana o trabalhador pode respirar, ou seja, ficar com sua família, ir ao médico, ter seu momento de lazer, ser criativo ou simplesmente contemplar a vida. Portanto, nós da Associação Profissional de Bibliotecários da Paraíba também apoiamos o fim da escala 6×1 que é responsável por tratar os seres humanos de forma muito semelhante como foram tratados em um passado não tão distante em que as pessoas negras foram escravizadas e objetificadas. Não há descanso e saúde mental que caibam em somente um dia da semana. Como diz a deputada federal Erika Hilton, trata-se de uma “escravização moderna”. As mulheres e mães são ainda mais sobrecarregadas, pois possuem uma carga horária invisibilizada somada ao de um trabalho “regular”, fora de casa. Se as pessoas tivessem suas necessidades devidamente respeitadas e mais tempo, poderiam até ser mais produtivas – que é algo que a sociedade tanto preza. Os trabalhadores da informação e outros cumpririam com suas demandas com muito mais qualidade por se sentirem melhor e mais inteiros. Contudo, é lúcido ressaltar que esta mudança seria não só pelo bem da produtividade, mas também pelo bem da dignidade humana que está adoecendo.
Como trabalhadores da informação é preciso estar sempre em um estado constante de observação especialmente no Brasil no qual há uma espécie de predador sempre à espreita ameaçando remover os direitos que as crianças, adolescentes, adultos e senhores e senhoras têm para se locomoverem na vida com maior emancipação, participação, autonomia, confiança e segurança (como os sempre visados componentes mais questionadores, a sociologia, a filosofia e as artes dos currículos escolares). É o bibliotecário que fará a acolhida do usuário. É o bibliotecário que facilitará que um estudante de matemática, artes plásticas ou medicina encontre de forma mais rápida e eficiente seu livro. É o bibliotecário que faz a gestão do ambiente da biblioteca para que as pessoas possam encontrar um refúgio – um lugar seguro e silencioso que não existe em nenhum outro cômodo da sua vida – para estudar e conquistar a vida.
Aparentemente não há outra maneira de mudar as coisas senão pela perseverança e pelas pequenas ações cotidianas no dia a dia da nossa profissão. O Brasil não deve se esquecer. O Brasil já foi escravizado e escravizou, foi torturado e torturou. O Brasil tem hematomas e outras feridas daqueles tempos que não estão tão distantes temporalmente, nem se pensarmos em termos práticos e diários. É possível que esse cenário mude – ainda mais, aos poucos – e não é preciso ser tão otimista. Basta olhar para o que já fomos um dia e o que somos hoje em termos de humanização das pessoas em seus trabalhos. Sim, claro, ainda há muito racismo, sexismo, preconceito contra nordestinos, e muitas outras espécies de “autodefesas” do ser humano contra o que é diverso ou considerado erroneamente como inferior. Que continuemos fazendo o nosso trabalho e parabéns pela sua contribuição diária, mesmo que simples! É preciso perseverar e preservar o que já temos de bom e esquecermos que somos seres políticos e portanto sempre capazes de mudar algo e agir como cidadãos (mesmo quando não estamos atentos).
Por Rafael Fita, graduando em Biblioteconomia na Universidade Federal da Paraíba e membro do projeto de extensão APB – PB nas mídias digitais: comunicação, divulgação, difusão e visibilidade da Associação Profissional de Bibliotecários da Paraíba
Instagram: @bomdiafita e @apbparaiba


